As propostas dos candidatos mais jovens a chefe de suco

Augusto Sarmento - Reportagem
Reportajen : Joana Silva
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Em outubro, a população timorense volta às mesas de voto para escolher chefes de suco / Foto: EPA imagens

Díli (Timor Post) – Em Timor-Leste, a cada sete anos, realizam-se eleições para eleger 442 novos chefes de suco. Com a tomada de posse do nono Governo, foi decretado o dia 28 de outubro para que o povo escolha os líderes locais e tradicionais. Semanas antes, alguns cidadãos começam a pronunciar-se quanto ao interesse no cargo e a apresentar as suas candidaturas e planos para o suco que pretendem chefiar.

Para nomear líderes do Governo e das autoridades locais sabemos que, num país de direito democrático, deve haver um sufrágio universal para dar voz às preferências da população. O artigo 65.º da Constituição da República Democrática de Timor-Leste, na primeira linha, prevê que “os órgãos eleitos de soberania e do poder local são escolhidos através de eleições, mediante sufrágio universal, livre, direto, secreto, pessoal e periódico”.

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Quanto à candidatura dos proponentes a chefes de suco, a Lei dos Sucos n.º 9/2016, de 8 de julho, no artigo 10.º, diz que “só podem exercer as funções de membro do Conselho de Suco os cidadãos timorenses, com idade igual ou superior a dezassete anos e inscritos no recenseamento eleitoral pela unidade geográfica onde se situa a sede do Suco”.

A 13 de outubro, os concorrentes vão apresentar-se na mesa eleitoral de cada suco. Cada candidato tem de ter, no mínimo, 1% de apoiantes do suco.

Em termos processuais é, à semelhança do que acontece nas eleições presidenciais ou legislativas, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) que está responsável pela fiscalização e validação do processo.

O Timor Post conversou com quatros jovens candidatos a chefe de suco, com idades compreendidas entre os 25 e os 29 anos, que podem vir a exercer funções no período 2023 – 2030, caso sejam eleitos.

Seja para os sucos mais remotos, ou para aqueles que estão mais perto de centros urbanos, o povo vai escolher quem pode trazer algo de positivo através de planos e programas de desenvolvimento do respetivo suco.

Jovem não faz promessas porque sabe que tudo depende do Governo central

Doadvend Ximenes – candidato a chefe de suco Uai Oli, em Venilale, Baucau/ Foto: Arquivo Pessoal

“Tenho 27 anos e formei-me na Universidade da Paz, no departamento de Relações Internacionais. Esta minha candidatura está relacionada com as condições da sociedade, porque o nosso país já é independente há alguns anos, mas a sociedade ainda não está consciente do verdadeiro sentido desta independência.

Olhando para a nossa realidade, em geral a sociedade participa muito pouco nas tomadas de decisão. Por esta razão, senti que deveria candidatar-me, para promover e valorizar a democracia em Timor, sobretudo no suco Uai Oli.

Não quero prometer qualquer programa aos habitantes de Uai Oli. Estamos sempre limitados pelos programas do Governo central. No entanto, como candidato, é óbvio que vou preparar planos para apresentar no momento da campanha.

Se ganhar as eleições, há cinco planos que quero implementar no meu suco. Um deles passa por reorganizar as casas sagradas, porque, no tempo da ocupação, foram destruídas pelos militares indonésios. Além disso, quero estabelecer um conselho de juventude no suco e promover a educação informal para a população que já não está em idade escolar, ou para os jovens que abandonaram a escola pública. É uma forma de os orientar para viver em sociedade.

Se não ganhar as eleições, mantenho a minha vontade de contribuir através de qualquer atividade. Perdemos na votação, mas não significa que nos tenhamos de render. Enquanto jovem habitante deste suco, não posso deixar de contribuir para o seu desenvolvimento. Não precisamos de estar no poder para contribuirmos para o desenvolvimento da nossa terra”.

O candidato que quer dar a imagem de um ‘suco resiliente e participativo’

Norberto Soares Ximenes – candidato a chefe de suco de Fatubosa, em Aileu/ Foto: Arquivo Pessoal

“As condições do suco, da população, dos jovens e estudantes, as condições ambientais, os problemas da educação e a economia local. Tudo isto me motiva ou justifica esta candidatura. Sinto o dever de resolver os problemas no meu suco.

Vamos tendo sempre eleições a acontecer, presidenciais, para o parlamento, para os sucos, mas não vemos grandes melhorias nas condições de vida da população.

Noto que nos últimos mandatos dos líderes comunitários a prioridade tem sido carimbar documentos, assinar cartas e prestar declarações nos sucos. No fim de contas, não há outras ideias alternativas para responder às condições de vida da comunidade.

Perante este cenário, quero dar a visão ao povo de um ‘suco resiliente e participativo’, com os seguintes programas prioritários: educação popular, criação do centro de informações do suco, economia solidária e melhoria do meio ambiente.

Com o projeto de educação popular pretende-se criar escolas alternativas para crianças e jovens que não conseguem ter acesso à escola ou que abandonam os estudos. Para isso, temos de criar parceiros permanentes para ter condições de avançar com o projeto.

A criação do centro de informações do suco vai dar a conhecer à população, e a quem nos quiser visitar, os recursos naturais, a produção agrícola conhecida (batata, cebola, alho, mostarda, feijão, etc.), locais turísticos, e outras informações úteis.

Sobre a economia solidária, a criação da cooperativa multissetorial para produção agrícola será importante para a sustentabilidade, sendo gerida pela população mais jovem, com o objetivo de que todo o suco beneficie com este projeto.

Em relação à ecologia e ao meio ambiente, neste momento, estamos a ver os riscos ambientais nos sucos e aldeias, sobretudo a falta de água.  Do que vimos até agora, não há nenhum líder comunitário que dê atenção a esta questão. Precisamos de conservar a água e a terra, porque é o que nos alimenta.

Para mim, a questão não passa por ganhar ou não. Com tudo o que esta escolha de chefe de suco envolve, acho que podemos e devemos esforçar-nos para canalizar todas as ideias dos candidatos e trabalhar em conjunto para as concretizar”.

“Não ganhar não significa que o suco vá perder o rumo para o desenvolvimento.”

Joanico Ferreira Vicente, candidato a chefe de suco de Belulic-leten, em Covalima/ Foto: Arquivo pessoal

“Quero candidatar-me a chefe do suco Belulic-Leten porque quero melhorar as condições de vida da população desta zona. Já preparei alguns programas nas áreas de Educação, Economia, entre outras, para apresentar durante a campanha.

Se a população do suco confiar em mim para liderar, não a vou deixar a andar sozinha. Por exemplo, alguns apoios das partes competentes chegam tarde. Eu, como responsável do suco, irei procurar sempre meios mais rápidos e eficientes para responder a essas dificuldades.

Não ganhar não significa que o suco vá perder o rumo para o desenvolvimento. Pelo contrário, vou dar apoio a quem vencer, para conseguirmos desenvolver o suco”.

“Se fosse para perder, não me teria candidatado”

António Loco, 28 anos, estudante finalista do curso de Administração Pública na UNTL (não quer que o Timor Post publique a sua foto).

“Sou de Aileu, Posto administrativo de Aileu – Vila e suco Seloi Malere. A profissão de chefe de suco é uma área que tem ligação com aquilo que estudei na Universidade. Sei de alguns planos do Governo que já estão a decorrer, sobretudo as políticas de descentralização. As conversas em torno desta política deixam a certeza de que vamos conseguir criar projetos de desenvolvimento. Por isso, tomei a iniciativa de me candidatar, de modo a pôr em prática o que aprendi na faculdade, para garantir o bem comum da população.

Na minha candidatura, considero cinco programas importantes, entre os quais, a melhoria do serviço de atendimento público e a realização de formações para toda a população. Em relação ao atendimento público, tenho de garantir o tratamento de documentos oficiais junto da comunidade. Por exemplo, o Governo conseguiu recentemente encontrar formas para que as pessoas conseguissem tratar do bilhete de identidade no próprio suco, sem terem de andar quilómetros, mas essa forma de atendimento já acabou. Por isso, procuro soluções para manter vivo este tipo de serviços mais cómodos para o povo.

A realização de formações, nomeadamente ao nível da educação cívica, principalmente para os jovens, ajuda a criar uma sociedade mais justa e pacífica. Por isso, neste momento, estou a esforçar-me nesta fase de candidatura, e a reunir alguns parceiros para ajudar a dar formações e para indicar o caminho certo para um futuro melhor.

Estes programas que apontei são planos que cabem na ideia de liderança dos sucos. Além disso, ainda existem outras carências que afetam a população, em que um líder local pode e deve agir. Por exemplo, em Aileu, os estudantes sofrem com a falta de equipamentos nas escolas, o que leva a uma reduzida participação ativa dos estudantes no ambiente escolar. Outra coisa é a falta de conhecimento da comunidade sobre as formas de tratamento das pessoas com deficiência.

Garanto que vou fazer tudo para ganhar. Se fosse para perder, não me teria candidatado. É óbvio que, em qualquer competição, há sempre um vencedor e um derrotado. Como cidadão e jovem que pertence a este país, penso que quem vai ganhar somos todos nós.  Para ganhar é fundamental ter convicção e um forte sentido de compromisso. Só assim é que se pode dar um contributo verdadeiro para a população.”

 

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