Fanatismo nos Grupos de Artes Marciais: A Perda do Sentido de “Maun-alin” Entre os Timorenses

Timor Post - Geral · Opinião
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Pe. Domingos Godinho de Araújo

Pe. Domingos Godinho de Araújo (Missionário do Verbo Divino em Portugal)

A luta pela independência de Timor-Leste foi um período em que todos se sentiram irmãos, sem discriminação. A palavra que nos unia era “Maun Alin” ou “Maubere Timor-oan”. Nesse tempo a solidariedade e o sentimento de fraternidade eram palpáveis. Todos partilhavam um objetivo comum e trabalhavam juntos para alcançar a liberdade. No entanto, após a independência, este sentido de irmandade como timorenses começou a esmorecer.

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Com a independência veio também a liberdade de expressão e a proliferação de diferentes práticas culturais, incluindo as artes marciais. Embora estas possam trazer benefícios como disciplina e autodefesa, também podem ser terreno fértil para a divisão e o conflito entre os jovens timorenses (como aconteceu muitas vezes em Timor-Leste, na Indonésia, na Inglaterra, em Portugal, etc.) devido ao fanatismo no seu seio.

Esse fanatismo tem conseguido dominar; embora estejamos a criar um futuro para Timor, é importante questionar se este futuro está a ser conduzido no sentido certo.

Como timorense que vive em Portugal sinto-me profundamente envergonhado e entristecido com os incidentes que ocorreram na madrugada de domingo em Fátima, um lugar sagrado que acolhe peregrinos de todo o mundo. Este incidente, que resultou na morte de um jovem timorense de 25 anos, foi causado por um confronto entre dois grupos de artes marciais diferentes, compostos por timorenses. Esta tragédia não só ceifou uma vida jovem, como também envergonhou a nossa comunidade, especialmente num local tão respeitado.

A situação desse fanatismo entre grupos é motivo de grande preocupação para o futuro da nossa nação e para o patriotismo entre timorenses. É urgente que os líderes do Estado e da comunidade reflitam sobre o caminho que estamos a seguir.

Como parte da nova geração preocupa-me profundamente que o nosso patriotismo continue a ser marcado por divisões internas e conflitos.

Os filósofos têm muito a dizer sobre o perigo do fanatismo de grupo. Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, advertiu sobre os perigos dos grupos facciosos que podem desintegrar a coesão social. Defendia que para um país prosperar, é necessário que os seus cidadãos estejam unidos em torno de um bem comum e não fragmentados por lealdades a subgrupos. Se permitirmos que este fanatismo continue a crescer, corremos o risco de ver o nosso país mergulhar no caos.

A violência que surge dessas rivalidades não ameaça apenas a segurança pública, mas também destrói os valores fundamentais de solidariedade e fraternidade que deveriam guiar uma nação recém-independente como a nossa. Devemos aprender com a nossa história e recordar o espírito de união que nos levou à independência. É imperativo que os líderes nacionais, os educadores e a sociedade civil trabalhem juntos para promover um sentido de identidade comum que transcenda as diferenças de grupo.

A educação desempenha um papel crucial neste processo. As escolas devem ensinar não só a história de Timor-Leste, mas também os valores da cidadania, o respeito mútuo e a resolução pacífica de conflitos. Programas que integrem jovens de diferentes grupos de artes marciais em atividades colaborativas podem ajudar a construir pontes de entendimento e cooperação.

Além disso, políticas públicas que promovam a inclusão e a participação juvenil em processos democráticos podem canalizar a energia e o entusiasmo dos jovens para fins construtivos. Projetos comunitários, debates públicos e iniciativas culturais são formas de fortalecer a coesão social e reduzir as tensões entre grupos.

Esses grupos têm uma responsabilidade. Devem cultivar uma cultura de respeito e responsabilidade, conscientes do impacto que têm na sociedade. A promoção de torneios amigáveis, a adoção de códigos de conduta e a colaboração com as autoridades locais são passos importantes para garantir que as artes marciais contribuam positivamente para a sociedade.

Em conclusão, embora a prática das artes marciais possa ser um elemento valioso na formação dos nossos jovens, é fundamental que seja orientada por princípios de solidariedade e respeito. Só assim podemos garantir que Timor-Leste avança como uma nação unida e forte, capaz de honrar o sacrifício daqueles que lutaram pela nossa independência.

O futuro da nossa nação e patriotismo depende das escolhas que fazemos hoje, e é nosso dever garantir que essas escolhas nos conduzam a um futuro de paz e prosperidade.

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