A técnica tradicional de Avô Kaitehu que desafia a ciência e atrai os homens

Mario da Costa - Geral
Reportajen : Romualdo Neves
  • Share
Moisés Mesquita, mais conhecido como Avô Kaitehu: jovem diz que técnica vem dos antepassados. Crédito: Arquivo Pessoal/Moisés Mesquita

Jovem diz já ter atendido mais de três mil homens, que o procuram para aumentar o tamanho do pénis

Na sociedade timorense, a designação “avô” é reservada às pessoas com idade superior a 60 anos ou às que já têm netos. No entanto, Moisés Mesquita, mesmo com 31 anos e sem filhos, já é chamado de avô. “Chamam-me avô porque tenho conhecimento para curar doenças e, sobretudo, por conhecer uma técnica que aumenta o pénis, através de massagens”, conta o Avô Kaitehu, nome pelo qual tem sido mais conhecido. Kaitehu é a localidade em que vive, situada no município de Liquiçá.

ADVERTISEMENT
SCROLL FILA BA NOTISIA


Desde que iniciou o atendimento há pouco mais de três anos, a fama de Moisés tem crescido “na mesma medida que a clientela”, enfatiza. Os clientes, detalha, são homens de diferentes classes sociais e idades. Em comum, têm um sentimento de insegurança. São, em resumo, pessoas com problemas nas relações pessoais, sobretudo amorosas.

“Quando chegam para fazer o tratamento, nota-se falta de confiança e até tristeza. A técnica não é somente para aumentar o tamanho do pénis, mas principalmente para aumentar a autoestima”, explica o Avô Kaitehu.

Pelas ruas de Díli e demais municípios, o apelido de Moisés, quando dito, arranca sorrisos dos rostos masculinos. Nas redes sociais, expressões como “Ba tiha ona Avô Kaitehu ka lae? Lae, fraku” (Já foi ao Avô Kaitehu ou ainda não? Não, é fraco) são recorrentes e vêm acompanhadas por emojis de gargalhadas. Pelos cálculos do Avô, já atendeu mais de três mil homens.

Moisés conta, orgulhoso, que a sua técnica já extrapola os limites de Timor-Leste e pode ser encontrada em países como Portugal, Inglaterra e Austrália – lugares com grande presença de imigrantes timorenses e onde discípulos do Avô atuam.

 A técnica

“Em pouco mais de um mês, de 14 centímetros mudou para 18”, garante Tonito (nome fictício), um dos clientes de Moisés. Tonito, que confessou um certo nervosismo no início do tratamento, conta em detalhe como foi a primeira sessão com o Avô Kaitehu.

“Após uma conversa com o Avô, em que ele explicou a técnica, estimulei o pénis para ‘acordá-lo’. Enquanto eu estava sentado em cima de um balde, coloquei o remédio no pénis e massajei-o, da forma ensinada pelo Avô, que observava atentamente e eventualmente me corrigia. Quando acabei, paguei os 15 dólares e fui embora. Pelo menos três vezes por dia, repetia o procedimento com o medicamento do Avô. Acho que deu certo”, disse.

Moisés conta que aprendeu a técnica através de familiares. Para o procedimento, utiliza 13 ingredientes, que, apesar de não revelados, “podem ser encontrados nos mercados locais”, relata.

Após misturar e cozinhar as substâncias, até que se forme um tipo de óleo, o Avô então armazena o “remédio” numa garrafa. Para ser atendido, o cliente não pode estar doente e deve comprometer-se a não ter relações sexuais durante todo o tratamento, que geralmente varia de 1 a 3 meses.

Se todos os critérios forem preenchidos, o Avô inicia os trabalhos. Antes da aplicação do óleo no pénis e da massagem, o procedimento envolve também uma reza. “É um tratamento sagrado, passado de geração em geração. Explico como se deve fazer a massagem. Caso o cliente não entenda, posso fazer eu mesmo. É tudo muito profissional”, afirma Moisés. Encerrado o atendimento, os clientes devem continuar o tratamento em casa.

Hilário (nome fictício), outro cliente do Avô, revela que, na primeira vez, não seguiu as regras e não obteve o resultado esperado. “Fui de novo, cumpri as orientações e consegui atingir o meu objetivo”, disse.

O homem é um dos que, pelo menos uma vez por ano, participa de uma cerimónia de agradecimento ao Avô Kaitehu, em que um galo e uma cerveja são levados ao curandeiro.

Moisés diz que, entre a vasta clientela, estão figuras das forças armadas, dos órgãos do Estado, polícias, artistas e profissionais da área da saúde. Ao se referir a estes, o Avô não esconde uma gargalhada. “Como é que os médicos questionam o tratamento, se são eles são também beneficiados?”, questionou.

Técnica não reconhecida pela ciência

Médicos que atuam em Timor-Leste não reconhecem a técnica do Avô Kaitehu como segura e a consideram-na uma fraude. Por essa razão, pedem cautela.

O clínico-geral João Joaquim, que se formou em Medicina em Cuba, explica que não existe tratamento médico comprovado capaz de aumentar o tamanho do pénis através de massagens e aplicações de substâncias. “O aumento peniano só é possível com intervenção cirúrgica e em casos muito específicos. É o que a ciência demonstra”, ressaltou.

Joaquim alerta ainda para um possível incumprimento de medidas de segurança e higiene, que podem levar ao aparecimento de doenças e infeções.

Já o médico Herbal de Sousa, que atua na clínica Marie Stopes, reforça que a falta de cuidados pode acarretar, inclusive, em casos mais graves, a amputação do órgão genital masculino. “É preciso ter muita atenção com procedimentos sem base científica. O pénis é um órgão sensível e suscetível a muitas enfermidades. Recomendo que o homem que estiver a pensar em procurar o curandeiro realize antes uma consulta com um profissional da área médica”, orienta Herbal.

O psicólogo Elvis do Rosário observa, por sua vez, que o leva um homem a querer aumentar o pénis é o machismo da sociedade.

“Grande parte da mentalidade masculina atribui ao pénis um valor simbólico poderoso. Pela lógica, tóxica, quanto maior o membro, maior a força e a virilidade. É um problema, pois, não raras as vezes, desperta no sujeito uma insatisfação dele com o próprio corpo, o que pode levar a quadros depressivos e de transtornos de ansiedade”, afirmou Rosário.

 O psicólogo explica ainda que o tamanho do pénis não é o que garante o prazer no ato sexual e que não há qualquer relação do órgão com outros aspetos físicos do indivíduo.

Tentámos, por quatro vezes, ouvir o Ministério da Saúde de Timor-Leste sobre o assunto, mas sem sucesso.

A massagem que mudou a vida do Avô Kaitehu

Além da comunidade médica, o Avô Kaitehu enfrenta a resistência de parte da sociedade timorense. Apesar disso, não pensa em desistir da sua atividade. “A técnica é antiga. O que eu fiz, ao contrário de meus familiares, foi tornar o tratamento acessível a mais pessoas”, diz. Conta ainda que a massagem mudou a sua vida e da família.

“Antes não tinha dinheiro para nada. Vivia apertado. Frequentei o curso de bancário, mas não o terminei por falta de recursos. Fui vendedor de quiosque, mas não tinha perspetivas. Agora, ajudo a minha família, já comprei um carro, duas motas e restaurei a minha casa”, conta, com um sorriso no rosto.

O mundo evolui, a ciência desenvolve-se, a tecnologia avança, mas os timorenses, como muitas pessoas no mundo, ainda acreditam na eficácia de tratamentos não convencionais, que valorizam a natureza e a sabedoria dos antepassados. Diante desse dualismo, a técnica do Avô Kaitehu será verdade ou mito?

 14,171 total views,  3 views today

Como Você Reage?
Like
Love
Haha
Wow
Sad
Angry
You have reacted on “A técnica tradicional de Avô Kaitehu que desafi…” A few seconds ago
  • Share
ADVERTISEMENT
SCROLL FILA BA NOTISIA

Outras Notícias da Timorpost


Comentários :
Timorpost.com Realmente Aprecio Sua Opinião. Seja Sábio e ético ao Expressar Opiniões. Sua Opinião é de Sua Inteira Responsabilidade de Acordo Com a Lei ITE.

error: