O que dizem as pessoas, 21 anos depois do dia mais importante da história de Timor-Leste?

Augusto Sarmento - Nacional
Reportajen : Joana Silva
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Em Timor-Leste, 20 de Maio representa a liberdade. “Mas, esta liberdade foi comprada com o sofrimento e a tristeza”, afirmou Madalena Mesquita/Foto: reprodução de Facebook

Díli (timorpost.com) – 20 de Maio de 2002. Timor-Leste acorda para a primeira manhã de liberdade, de independência, de uma democracia que surge depois de 24 anos de resistência e três anos de um governo transitório. Entre tortura, nas mãos das tropas indonésias, fome, pobreza, a Resistência, como ficou conhecida, foi um período difícil e sangrento. Mais de 200 mil timorenses terão perdido a vida.

E hoje, 21 anos depois da restauração da independência, o que dizem as pessoas? O Timor Post saiu às ruas de Díli para ouvir a voz de diferentes cidadãos, de duas gerações. Primeiro, das pessoas que estiveram presentes no dia em que Timor-Leste apresentou a sua Constituição, enquanto República Democrática, à data, a mais jovem do século XXI, numa cerimónia que teve lugar em Tasi Tolu. Depois ouvimos os jovens, que apenas conheceram a história através da família e na escola.

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O que é o dia 20 de Maio?

Paulino Quintas, ex-jornalista – que fez cobertura no dia 20 de Maio de 2002 –, classificou o 20 de maio como “o momento que mudou o rumo do país”. Por essa razão, argumenta, “temos de valorizar esta data marcante”, enfatizou o ex-jornalista.

Madalena Mesquita, de 57 anos, vendedora ambulante, descreveu o 20 de Maio como o dia da liberdade. “Mas, esta liberdade foi comprada com sofrimento e tristeza”, disse.

No ponto de vista de João da Costa, docente da Universidade Nacional Timor Lorosa´e (UNTL), a longa luta para obter a liberdade total deixou marcas no país. Foram anos e anos de sofrimento, conta, acrescentando que, “por fim, em 2002, Timor-Leste reconstruiu um novo estado, que já tinha sido destruído pelo inimigo. Então, o 20 de Maio é uma data para relembrar e refletir sobre aquilo que representa a independência”.

Maria Pereira, estudante de Medicina Geral da UNTL, vive o 20 de Maio como sendo uma data especial. “Porém, Timor-Leste deve realizar mais atividades que tenham impacto na população e que ajudem a relembrar o passado”, afirmou a jovem universitária.

Recordar momentos especiais

Naquele momento em que o jovem país se tornava independente, a Rádio e Televisão da United Nations Transitional Administration in East Timor (UNTAET) transformava-se em Televisão de Timor-Leste (TVTL), atual RTTL, e transmitiu o evento em direto.

Paulino Quintas, hoje com 51 anos, tem recordações muito vivas do dia, pois na altura, como jornalista, fez cobertura e acompanhou toda a cerimónia em Tasi Tolu. Segundo o ex-repórter da RTTL, naquele momento era possível perceber a união do povo e o entusiasmo na cara das pessoas e dos líderes.

 “Sinto-me orgulhoso, como jornalista timorense, que teve a oportunidade de registar aquele evento extraordinário. Na realidade, não tínhamos recursos humanos, financeiros, nem equipamentos suficientes, mas esforçámo-nos ao máximo para transmitir informações de qualidade”, contou, visivelmente emocionado.

Uma grande parte da população não participou diretamente na cerimónia em Tasi Tolu, mas as comunidades nos municípios andavam à procura, naquele dia, de casa em casa, de uma televisão para acompanhar a transmissão direta do evento. “Quase todas as pessoas que viviam nas áreas remotas conseguiram ver e sentir aquele momento marcante”, disse o ex-repórter.

Também a vendedora ambulante contou que, há 21 anos, participou no 20 de Maio, em Tasi Tolu. “Vi que estava lá muita gente. Cada pessoa mostrava a sua emoção. Fiquei muito contente, porque Timor-Leste não vai sofrer mais nas mãos de outro qualquer país. Quando vi o içar da bandeira da República Democrática de Timor-Leste (RDTL) e ouvi o hino nacional, pensei que a nossa nação podia agora andar sozinha para realizar os próprios sonhos”, contou, com orgulho.

O docente e a estudante da UNTL ouviram a história mais tarde, porque, naquele tempo, os dois ainda eram crianças. João tinha, 6 anos e a Maria tinha 6 meses. “Só passado algum tempo é que fiquei a conhecer a história através da família e da escola”, disse João da Costa.

À medida que Maria ia crescendo, ia ouvindo as histórias do tempo da Resistência, contadas uma e outra vez, pelas várias gerações. “A minha família contou que, em Tasi Tolu, apesar de ser uma área relativamente grande, no dia 20 de Maio, não cabia mais ninguém naquela bonita festa, cheia de pessoas entusiasmadas para mostrar ao mundo que Timor-Leste era, finalmente, um país livre”, contou.

Situação e condição atual

São diferentes as opiniões e observações dos testemunhos que conseguimos recolher, sobre a situação atual de Timor-Leste, após 21 anos de independência. “Timor-Leste já é independente. Por isso, nós (os velhos) não queremos que os jovens se matem uns aos outros. Eles precisam de viver em paz e harmonia para desenvolver o país. O destino da nação fica nas mãos dos jovens. Se houver problemas assim, todos os dias, no futuro, quem é que vai governar este país? Porque a guerra já acabou!”, disse Madalena Mesquita num tom indignado. A vendedora apela às elites que criem mais oportunidades de trabalho para os jovens, para que não se pense mais em conflitos.

De acordo com um relatório da Organização Não-Governamental (ONG) La’o Hamutuk, de 2021, o desemprego atinge 27% da população timorense. O país tem aproximadamente 1,3 milhões de habitantes.

Também João da Costa se mostrou um pouco triste com esta data comemorativa, que coincide com a campanha eleitoral – período em que líderes políticos se insultam mutuamente. “Através desta postura dos políticos e do uso de discursos agressivos, os governantes abrem portas, indiretamente, para conflitos entre os jovens”, observou.

Já Maria Pereira demonstra satisfação por crescer como mulher na era da pós-independência. “Sabemos que, nos últimos anos, há organizações que defendem os direitos das mulheres. Por isso, as mulheres sentem-se encorajadas para participar na vida social”, disse com orgulho.

Quatro vozes entre as muitas que teriam algo a dizer sobre os 21 anos de independência desta ilha do crocodilo. Uma coisa é certa, independentemente da idade, da história de vida, da ideologia política, sabemos que os timorenses querem que o país e que os seus líderes dêem as mãos na hora de trabalhar para um Timor-Leste próspero, livre e verdadeiramente independente.

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