IDENTIDADE LINGUÍSTICA DOS TIMORENSES

Augusto Sarmento - Educação · Opinião
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Paulo Henriques doutorou-se em Ciências de Educação,
Paulo Henriques doutorou-se em Ciências de Educação,

Timor-Leste só conseguiu a sua independência política em 2002. No entanto, dois anos antes, em 2000, ocorreu um debate a nível nacional, organizado pelo então Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Para o efeito, foi convidado um grande número de intelectuais, tanto timorenses como estrangeiros, com o intuito de debater o futuro do novo país, nomeadamente no que se referia à língua oficial da nova nação. Esse grupo incluía o grande linguista australiano, o Professor Geoffrey Hull, cujo estudo sobre a realidade linguística timorense remonta a década antes de o país ser independente.

Houve opiniões divergentes entre a chamada “geração de 75” e a da ocupação indonésia sobre se se incluiria o português como língua oficial. A geração de 75 apostava fortemente na recuperação da identidade do povo timorense. Para isso, o português teria de ser uma das línguas oficiais do futuro do jovem país.

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Por outro lado, a nova geração que, maioritariamente, fora instruída durante a ocupação, defendia o uso do indonésio (língua falada pela esmagadora maioria) como língua oficial, uma vez que não falava o português e temia a exclusão social por não conseguir expressar-se no idioma de Camões.

Outros defendiam que uma de duas línguas, o tétum ou o inglês, seria a única língua oficial do país. A discussão era tão intensa que ninguém saiu vitorioso, pois todos tinham de ter a capacidade de ceder a uma decisão final. Os timorenses mostraram essa capacidade durante 24 anos de luta pela independência, a de saberem reconhecer os seus fracassos e reconciliarem-se.

Na mesma ocasião, aquele professor tomou a palavra e proferiu algumas frases magníficas que viriam a ser uma referência clara para os intervenientes políticos na escolha do idioma para o novo país. Passo a citar a seguinte afirmação: “parece-me que o papel central da língua portuguesa na civilização timorense é completamente inquestionável”. E continuou: “Se Timor-Leste deseja manter uma relação com o seu passado, deve manter o português.

 

Se escolher outra via, um povo com uma longa memória tornar-se-á numa nação de amnésicos e Timor-Leste sofrerá o mesmo destino que todos os países que, voltando as costas ao seu passado, têm privado os seus cidadãos do conhecimento das línguas que desempenharam um papel fulcral na génese da cultura nacional” (Hull, 2001, p. 39). O linguista referiu igualmente que o poder económico poderia da mesma forma ameaçar seriamente as instituições com os valores tradicionais. Esta ameaça está latente nos nossos dias, embora ninguém o perceba.

Como referi atrás, nenhuma fação saiu vitoriosa sobre outra no final do debate: todos ganharam, porque desse debate resultou uma opinião unânime. Esta unanimidade veio à tona, em 2002, com a aprovação da Constituição da República Democrática de Timor-Leste pela Assembleia Constituinte, onde se estabeleceu no artigo 13.º que o tétum e o português são as línguas oficias desta nação.

Por conseguinte, a administração pública, as escolas e a administração direta do Estado timorense passaram a utilizar o português como veículo de comunicação administrativa, ignorando inicialmente o tétum. Após a criação do Instituto Nacional de Linguística (INL), em 2002, e a produção de algumas obras pioneiras, nomeadamente o Dicionário de Tétum INL, Hakerek Tetun tuir Banati, Kursu Gramátika Tetun, etc., o tétum começou vagarosamente a ganhar forma de escrita rudimentar na sociedade timorense. Desde a data da independência, 2002, até hoje, 2023, o Estado timorense fez uma grande evolução nas infraestruturas básicas e estabeleceu as instituições democráticas, etc.

Contudo, vinte e um anos depois, ainda se observa um incumprimento grave cometido pela sociedade em geral no que toca à valorização das duas línguas oficiais. Apesar de muitos timorenses se orgulharem de falarem e escreverem tétum, é a altura de nos questionarmos: que tipo de ortografia de tétum se usa no quotidiano?

Cabe agora às entidades competentes avaliarem e, quando for possível, colocarem na sua agenda política a uniformização da ortografia do tétum. Não podemos viver num país onde cada um escreve à sua maneira e as empresas estrangeiras desrespeitam ostensivamente as nossas leis. Até quando temos de assistir com aperto no coração a esta situação? Depois da extinção de uma geração? Deixo aqui o desafio de cada cidadão fazer uma reflexão relativa ao que se assiste quotidianamente neste lindo país.

Ora, estamos na véspera de eleições parlamentares. Cada partido político procura seduzir os eleitores com o seu programa de desenvolvimento para cinco anos, caso venha a governar. Os maiores partidos vão aos comícios com muita confiança, pois assistem a muita adesão e aglomeração das pessoas. Por outro lado, estes comícios servem simplesmente para medir as forças de cada lado. Os que têm menos apoiantes tentam juntar-se para conseguirem eleger pelo menos os seus representantes no Parlamento Nacional.

Vê-se nestas últimas semanas que todos os cidadãos estão entusiasmados a ouvir as promessas e, ainda assim, muitos dececionam-se por verificarem que este governo não cumpriu minimamente o que foi prometido na eleição anterior e, que, alguns serviços públicos estão a deteriorar-se. Portanto, vive-se hoje um ambiente verdadeiramente democrático.

A democracia constrói-se e alimenta-se com a paz e a tranquilidade. De acordo com The Economist Intelligence Unit (EIU), edição de 2016, Timor-Leste lidera o ranking do Índice da Democracia no sudeste asiático e é o 7.º na Ásia e Oceania.

Os timorenses merecem esse reconhecimento, pois foi para isso que lutaram duas décadas e meia contra o regime soehartino. Apesar deste reconhecimento internacional, não vejo, em quase nenhuma das campanhas partidárias, ninguém, em algum momento, destacar que a consolidação da identidade linguística dos timorenses será uma prioridade nacional nos próximos cinco anos, isto é, que haverá uma aposta na formação dos quadros técnicos qualificados em linguística e que se resolverá de vez a questão da ortografia “macarrónica” do tétum.

Só assim consolidaremos as línguas oficiais como um dever patriótico. Se não olharmos com seriedade para esta questão, não consolidaremos a identidade dos timorenses, pois a questão identitária não se limita simplesmente às coisas materiais como as peças tradicionais timorenses; a língua faz parte integrante desse processo. Esperamos que desta eleição saia um novo governo que priorize a questão em apreço.

[1] Paulo Henriques doutorou-se em Ciências de Educação, especialidade em Literacias e Ensino do Português, pela Universidade do Minho, Portugal. É docente do Mestrado em Ensino do Português no Contexto de Timor-Leste da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), formador de tétum jurídico e tradutor jurídico do Centro de Formação Jurídica e Judiciária (CFJJ). 

      

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