Ramelau: Caminho que desencoraja e beleza que fascina

Mario da Costa - Ainaro
Reportajen : Constantino Savio
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Ramelau, o ponto mais alto de Timor-Leste com 2.967 m de altitude– foto: equipa CLJ

No tempo da colonização portuguesa, Ramelau era a montanha mais alta de Portugal. Em 1997, quando levaram a Estátua de Nossa Senhora, vinda da Itália, para o topo da montanha, iniciou-se a peregrinação ao monte. A estátua foi adquirida pela Indonésia na tentativa de agradar o povo timorense, pois na época havia muita pressão para que o país se tornasse independente – o que finalmente viria a acontecer em meados de 2002.

Situada na localidade de Hatu Builico, o Monte Ramelau mede 2.967 metros de altura e é um dos principais cartões de visita de Timor-Leste.

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É acessível a todos. Pode-se chegar até a base do Monte de mota, de carro, de bicicleta ou até mesmo caminhando – como fazem algumas pessoas que vivem nos municípios mais próximos, como são os casos de Maubisse, Ermera e Aileu.

Para aqueles que preferem optar pelo veículo, os mais indicados são os jipes e camionetas com tração às quatro rodas, pois são os que oferecem mais segurança para enfrentar o mau estado das estradas. As pessoas gostam normalmente de iniciar a viagem a partir de Díli, saindo de manhã cedo, para poder chegar à base do Ramelau ainda antes que o sol se ponha.

O percurso até ao topo do Monte inicia-se a partir do santuário, localizada numa zona descampada.

Muitas pessoas, ao chegarem lá, montam as tendas, fazem fogueiras, alimentam-se, convivem alegremente e descansam. Aqueles que almejam ver o nascer do sol do alto da montanha geralmente iniciam o percurso por volta das 2h da madrugada.

Aconselha-se às pessoas a levarem comida já confecionada, como sanduíches, produtos enlatados, massas instantâneas ou fruta, além de água. É necessário também munir de roupas de inverno, pois a temperatura desce à medida que se sobe rumo ao topo. Lanternas de cabeça (para ter as mãos livres) e bons calçados também são indumentários essenciais.

Desafios

O primeiro desafio para se chegar ao Monte Ramelau é a estrada de Díli para Aileu. A via está em obras, pelo que é difícil contornar os buracos, pedregulhos, além da poeira, muita poeira.

Na estrada que liga Díli a Aileu existe uma cascata bastante conhecida. Os Modo-metan (habitantes de Aileu) costumam dizer que “quando chegamos à cascata, chegamos a Díli”. É um lugar tranquilo, onde o vento assobia, os passarinhos cantam e a água cristalina embate contra as pedras. O local serve como ponto de paragem a meio da viagem, período durante o qual os viajantes aproveitam para tirar fotografias.

Seguindo viagem, chega-se a Aileu, uma cidade pacata, com poucos edifícios, um mercado, lojas chinesas, lojas da Timor-Telecom, Telemor e alguns vestígios da colonização portuguesa – como a estátua de Dom Bau-Meta, situada na estrada principal e o monumento dos Massacrados de Aileu em 1945. A viagem feita entre Aileu e Maubisse, o próximo posto administrativo, foi mais cómoda, pois o piso estava em muito bom estado.

De Maubisse rumo a Hatubilico são 18 quilómetros de distância. As estradas estreitas, molhadas – devido à humidade – e com falta de iluminação dificultam a circulação. Para evitar qualquer acidente de viação, carros e motas devem circular a baixa velocidade e com precaução. No caminho, as vistas deslumbrantes e as flores coloridas que despontam durante o trajeto tornam a aventura mais aprazível. Em Hatu bilico, um dos postos administrativos de Ainaro, é possível avistar casas bonitas e um clima bem mais fresco. Um dos últimos desafios é a subida até ao santuário, a base do Monte. Trata-se de uma estrada extremamente íngreme e desnivelada, com buracos que se assemelham a crateras. É um troço que exige destreza e paciência por parte dos condutores de veículos ou de motorizada.

Numa zona descampada do santuário, vislumbra-se um pequeno comércio, onde é possível comprar água, café, snacks e comida enlatada. Nesse ambiente, o entusiasmo é contagiante. As pessoas conversam animadamente e sorriem, talvez por saberem o quanto foi difícil chegar até lá. Cada pessoa tem os seus próprios motivos para querer viajar até ao Ramelau, alguns por desfrutar a paisagem, outros por questões religiosas.

Nívia Cristóvão, jornalista e amante de aventura que visitou já o Monte duas vezes, disse que, o que a motivou a subir o Ramelau foi a beleza deslumbrante da natureza. Para Joanico Barreto, jovem ativista da Associação Estudantil do Município de Ainaro (ASEMA), Ramelau é um lugar adequado para rezar e meditar. Algumas pessoas acreditam que, por estarem mais próximas do céu, as preces possam ser ouvidas e, por isso, terem maiores chances de serem atendidas.

A caminho do Ramelau: o relato de uma subida com os amigos

A equipa constituída por professores e formandos do Consultório da Língua Para Jornalistas (CLJ). -Foto: equipa CLJ

Na madrugada de domingo, por volta das duas horas e meia, começamos a subir, tal como combinado.

No trajeto, apesar do cansaço e dores nas pernas, há pessoas que incentivam a continuar a caminhada, o que serviu como motivação extra. Após quase duas horas de subida, encontramos a capelinha, o local mais próximo do topo de Ramelau, onde foi possível repousar para comer, beber e estender as pernas. A construção fica numa área de aproximadamente 30m2, onde se destaca uma casa de madeira destruída por um incêndio e algumas cadeiras. Também é um lugar onde habitualmente se celebram missas. Da capelinha até a estátua de Nossa Senhora são quase 30 minutos de caminhada.

Ao chegarmos perto do cume, começamos a apreciar a beleza do amanhecer frio. Respiramos um ar fresco como nunca havíamos respirado na nossa vida.

Faz muito frio lá do alto, mas não importa. O nosso desconforto e cansaço transforma-se em gratidão quando chegamos à Nossa Senhora.

Depois de terminar a minha oração, encontrei os meus amigos que chegaram primeiro. Abraçámo-nos e disse-lhes, depois de 25 anos da minha vida: “hoje estou no ponto mais alto de Timor-Leste”.

É comovente ver a fé das pessoas, que fazem preces e oram em frente à estátua com muito fervor. Muitas chegam a chorar de emoção. Outras, porém, aproveitam o momento para tirar inúmeras fotografias, na tentativa de não deixar escapar nenhum detalhe da paisagem hipnotizante do local.

Sentimos também que estamos entre as nuvens e podemos perfeitamente ver como nasce o sol.

Pode-se dizer que caminhar até ao Monte Ramelau é como caminhar rumo ao nosso futuro; é caminhar para alcançar o nosso objetivo; é levar-nos a conhecer a vida real que se resumiu em duas ou três horas de puro desafio e deleite.

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