Benvinda Lemos, a educadora timorense que não quer ver os livros a chorar

Mario da Costa - Educação
Reportajen : Joana Silva
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Benvinda é professora permanente do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL desde 2007/Foto: Arquivo Pessoal

Díli (timorpost.com) – Em todo o lado, as pessoas dizem e acreditam que o tempo é ouro. Entre aqueles que tentam fazer valer a pena cada segundo, minuto e hora está a professora Benvinda Lemos da Rosa Oliveira, que organiza o seu tempo para ensinar e escrever livros.

Natural de Díli, a docente atualmente leciona na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) e já escreveu, como autora e co-autora, seis livros.

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Seu gosto pela arte da leitura e escrita começou quando trabalhava na área da contabilidade, nos Serviços do Ministério da Educação, desde 1975. Foi nessa altura em que teve disponibilidade para aceder a muitos livros.

Os escritores portugueses Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis eram alguns de seus autores preferidos.

Devido à instabilidade política de Timor-Leste durante o período da ocupação indonésia, teve que adiar o estudo universitário. Porém, quando o país já se encaminhava para a restauração da independência, ainda sob a administração transitória da Organização das Nações Unidas (ONU), Benvinda sentou-se pela primeira vez numa carteira universitária, em 2001. Ouviu dizer naquela altura que a UNTL tinha aberto um novo curso de português.

“Candidatei-me e finalmente entrei na faculdade. Tinha por volta dos 40 anos”, disse Benvinda, uma das primeiras alunas do Departamento de Língua Portuguesa (DLP) da UNTL.

Passados dois anos, era ainda aluna e exerceu também a função de secretária do departamento. Recorda que, durante essa fase, nenhuma das atividades ficava para trás, graças ao seu respeito pela forma de gerir o tempo. Benvinda terminou a licenciatura em 2006 e já no ano seguinte obteve a função como professora permanente da UNTL no DLP.

Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de fazer mestrado na própria UNTL, em parceria com a Universidade do Minho, de Portugal. Benvinda encarou o desafio e em 2011 tornou-se mestra em Linguística.

Produção das obras

Com toda a sua autoconfiança e diligência, a educadora começou a cultivar o gosto pelo estudo e reprodução de histórias reais. Em 2009, decidiu juntar um grupo que partilhasse o gosto pela escrita e tivesse interesse nos assuntos relacionados com a realidade das crianças timorenses.

O coletivo era composto por três timorenses e uma brasileira. “Eu, o meu marido Silvestre Oliveira, Afonso Maia e Márcia Cavalcante. Escrevemos um capítulo, intitulado ‘A voz de alunos e professores timorenses sobre os direitos da criança no decorrer da História’”, disse.

O capítulo escrito fazia parte do livro “Crianças dos Países de Língua Portuguesa”, organizado por Verônica Regina Muller e que conta com contribuições de outros autores de países lusófonos. A obra foi lançada em 2011, no Brasil. Benvinda Lemos também participou no evento.

Em 1989, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. É com base nesta convenção que países como Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste buscaram, de diversas maneiras, implementar a ideia de direitos – sociais, civis e políticos – para a população infantojuvenil.

Livros em que a professora colaborou como co-autora/Foto: Arquivo Pessoal

No capítulo, Benvinda e os demais autores procuraram descrever, com foco em Timor-Leste, os direitos das crianças nos períodos da colonização portuguesa (1515 -1975), da invasão indonésia (1975-1999) e da pós-independência em 2002. Deram um olhar sobre os assuntos relacionados com o direito à vida, à educação e à saúde das crianças naquela época. Também abordaram o domínio das línguas portuguesa e indonésia (bahasa) e o impacto que isso teve em termos socioculturais.

Três anos depois, a educadora voltou a ser coautora de um livro sobre cultura timorense, vindo a colaborar com o capítulo “Valorizando a cultura Timorense através de jogos e brincadeiras”. O tema integrou o livro “Brincar, Brinquedos e Brincadeira – modos de ser criança nos países de língua oficial portuguesa”, organizado por Catarina Tomás e Natália Fernandes.

Em 2015, no dia 5 de maio – data em que se comemora, desde 2009, o Dia Internacional da Língua Portuguesa – a escritora e os seus colegas professores do departamento lançaram um novo Dicionário Português-Tétum. A obra ajuda muitos timorenses a estudarem a quinta língua mais falada no mundo. Na estrutura do dicionário, o vocabulário está escrito em português e a sua explicação em tétum.

Após esse trabalho, a escritora abandonou a produção de livros em coautoria. Hoje em dia, produz as suas obras de forma independente, como o Disionáriu Espresaun populár Dalen Tetun Nian (Dicionário de Expressão Popular em Língua Tétum), lançado em 2021, no âmbito da comemoração do 20º aniversário do DLP.

Dicionário da Expressão Popular em Língua Tétum, primeiro livro independente da educadora, lançado em 2021/Foto: Arquivo Pessoal

Ensinar faz parte da rotina diária da professora de 64 anos, como também a paixão pela escrita. Nas horas vagas, “à noite, por exemplo, vou rabiscando alguns textos, embora isso me tire o sono”, comentou.

A educadora acredita que ensinar é partilhar. “Vou ensinar e vou aprender com os meus alunos. Juntos, exploramos palavras ou expressões que surgem nas conversas diárias. Este processo ajuda-me a encontrar matéria para escrever”, refletiu.

A escritora prevê que, neste ano, consiga lançar mais dois livros: um livro didático, bilingue (Tétum e Português) e um livro científico, em tétum.

Falhanços no sistema educativo de Timor-Leste

Como professora, também identifica algumas lacunas no sistema educativo timorense ao longo destes 20 anos desde a restauração da independência. “Ainda assim, o DLP tem-se esforçado sempre para dar o melhor, através do ensino”, contou.

Segundo a observação da professora, a maioria dos alunos chega ao departamento de língua portuguesa a pensar que os cursos são para aprender a língua – quando na verdade é para formar professores. “Entram no DLP com o nível muito, muito baixo. Mas, a culpa não é de ninguém. É do sistema. Todos os anos, em vez de se subir o nível de português, sentimos que este vai regredindo”, lamentou.

A educadora deixa alguns conselhos aos seus alunos: que se esforcem, que procurem sempre mais e melhores fontes de conhecimento. A inteligência não depende apenas dos professores.

“Aconselho sempre os meus alunos: Olha, está ali a biblioteca! Se os livros tivessem olhos, até podiam chorar; se tivessem boca, podiam gritar – porque é que vocês não me pegam?”.

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